O ATAQUE
À ONU EM BAGDÁ
Na último dia 19,
um atentado à sede da ONU em Bagdá causou a morte
de duas dezenas de pessoas, entre elas o Alto Comissário
da ONU para Direitos Humanos, representante da organização
naquele país: o diplomata brasileiro Sérgio Vieira
de Mello.
Todos ficamos chocados
com essa morte estúpida e precoce de nosso compatriota,
principalmente pelo fato de ele ter sido um homem que sempre esteve
ao lado da paz e do respeito aos povos, que sempre se opôs
à ocupação do Iraque, que sempre se referiu
àquele país com profundo respeito. Um atentado com
tal violência nos causa indignação, e nos
parece não apenas um ato fanático, mas uma loucura
quase incompreensível.
Porém, apesar dessa
indignação, devemos ter cuidado antes de formar
um julgamento sobre as pessoas e facções envolvidas
no episódio. É necessário antes compreender
que do ponto de vista do povo iraquiano as coisas se mostram bem
diferentes do que se mostram a nós.
A nossos olhos, a ONU parece
uma organização acima de qualquer crítica;
um fórum que congrega a maior parte dos países do
mundo e que se materializa na figura de pessoas dignas como seu
secretário-geral Kofi Annan ou o próprio Vieira
de Mello; uma entidade multilateral e democrática; talvez
nossa única esperança de que o mundo possa algum
dia ser um pouco melhor.
Tendo em mente essa
ONU, é difícil sequer conceber que alguém
possa atacá-la. Mas a questão é que a ONU
atacada não foi essa.
A única ONU que
existe para o povo iraquiano é a que impôs as sanções
econômicas que paralisaram o país em 1990, sanções
que causaram a morte de centenas de milhares de crianças
por desnutrição e aleijaram o sistema de defesa
preparando o terreno para a invasão estadunidense.
Depois de padecerem 13
anos de privações e verem arder suas cidades em
chamas, falar ao povo iraquiano em uma ONU benigna é
falar de um devaneio impalpável.
E, subjetivismos à
parte, o papel da ONU no Iraque foi, no mínimo, duvidoso.
Se as sanções por si próprias já eram
eticamente questionáveis, a ocupação estadunidense
colocou a ONU no papel do cúmplice que imobiliza a vítima
para que o estuprador faça seu serviço.
Hoje, diante das violentas
e inevitáveis reações à invasão,
que atitude devemos nós (os outros países, a ONU)
tomar? Devemos nos interpor entre agressor e vítima, tentando
aplacar a fúria desta?
Ao decidir tomar tal atitude,
não deveríamos estranhar que a vítima acabasse
nos confundindo com o agressor.
Afinal, não foram
os EUA que unilateralmente decidiram invadir, enfraquecendo a
ONU e desdenhando a opinião internacional? Não foram
os EUA que forçaram essa guerra embrulhando-a em "motivos"
que hoje sabemos falsos?
O que então está
a ONU fazendo no Iraque hoje?
É uma pergunta que
merece profunda reflexão.
Para mostrar aos iraquianos
que sua intenção nunca foi entregá-los nas
mãos de invasores, não seria melhor a ONU negar-se
a compactuar com qualquer ação dos EUA naquele país?
Retirar-se de lá, entregando a ajuda humanitária
nas mãos de organizações de caráter
exclusivamente filantrópico?
Por que não deixar
que o invasor colha sozinho os frutos do que plantou?
Nessas circunstâncias,
não devemos dirigir nossa indignação apenas
contra o autor do atentado – Fedain, partido Baath, xiitas, sunitas,
Al Qaeda, ou quem quer que seja – pois as verdadeiras causas dessa
violência são bem conhecidas e não estão
no Iraque, estão em Washington. É para lá
que o principal dessa conta deve ser mandado.
O Iraque tem divisões
e desavenças seculares que dificilmente compreenderíamos,
mas que permanecerão latentes enquanto durar a luta contra
o inimigo maior: a força de ocupação estrangeira.
Como disse Robert Fisk: "a guerra de Bush pode ter acabado, mas
a dos Iraquianos está apenas começando". Aos bem
intencionados: é melhor manter distância (do conflito
e do petróleo)!
É uma amarga ironia
que esse cenário torpe tenha custado a vida de alguém
como Vieira de Mello, pessoa de real grandeza de alma e de intenções
sinceras, distinto da afetação e hipocrisia que
ordinariamente se encontram no mundo político.
Qualquer lição
que se possa tirar desse episódio terá sido muito
pouco, pelo terrível preço pago. Mas os que imaginam
homenagear a memória de Vieira de Mello teimando em manter
a presença da ONU no Iraque deveriam pensar duas vezes.
Na atual conjuntura, essa insistência não ajudará
nem as vítimas, nem a própria ONU.
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