A GUERRA AMERICANA
O gigantesco disco voador
paira sobre o deserto. Ele já pulverizou a Casa Branca
e o pentágono com seus raios yx e agora avança
para dar cabo do presidente dos Estados Unidos, que está
escondido numa base aérea, um dos últimos bolsões
de resistência. Alguns caças tentam se opor ao
avanço, mas vão sendo abatidos um a um, com ridícula
facilidade.
O cruel Xmux acompanha
o massacre por sua tela ômega, sorrindo satisfeito pelas
três mandíbulas. Mas eis que acontece algo inesperado:
- Ali, Zbog! veja ali!
- grita Xmux apavorado. - O que é aquilo?!
- Ai, meu Deus! - responde
Zbog.
Um dos aviões
americanos vem rumando direto para o umbigo da nave, o centro
nervoso, o miolo, o ponto G... Se tocar ali, explode tudo.
- Um terrorista! - berra
Xmux, erguendo-se nas seis patas traseiras.
- Ai, que horror, um
terrorista camicase! - acrescenta Zbog.
- Alerta cinza! - grita
Xmux pelo auto falante. - Atenção operárias,
soldadas, rainhas fêmeas, rainhas macho, ninfas e larvas,
alerta cin...
BUM!
Estava tudo acabado.
A imensa nave dos orgulhosos ExxoM'ianqs, que era também
sua cidade e toda sua civilização, havia explodido
junto com o avião do terrorista. Uma tragédia!
Tragédia? Tudo
é uma questão de ponto de vista. Para os americanos,
esse mesmo acontecimento foi algo glorioso, celebrado com bandeirinhas,
bexigas e mulheres vestidas com bandeiras; e o piloto “terrorista”
foi considerado um herói.
E esse é o final
do filme Independence Day.
É interessante
como Hollywood gosta de inverter as coisas. Lá, ser prostituta
parece algo glamouroso, leve e lindo. A solidão doentia
do caubói - que não precisa de ninguém,
e vai-se embora sem olhar para trás - parece o modelo
ideal de vida de um homem. E os soldados americanos parecem
heróis. Heróis que enfrentam sempre inimigos infinitamente
mais poderosos, e que intrepidamente sacrificam as próprias
vidas.
É um fenômeno
curioso, que deve ser causado por alguma espécie de compensação
psíquica. Algo como o baixinho valente, o brutamontes
dócil, a modelo analfabeta que tenta parecer inteligente,
o homem impotente que age como conquistador insaciável,
ou algo do tipo... Pois a realidade é exatamente o oposto
do que o cinema mostra.
A guerra americana da
vida real não é heróica; é torpe
como o raio yx do disco voador: um apocalipse de bombas, mísseis,
fogo, explosões, radioatividade, agentes químicos
e napalm, caindo sobre pessoas que nunca saberão o que
as atingiu e que nunca tiveram nenhuma chance de se defender...
Dresden, Hiroshima, Bagdá... a lista é longa.
Não há
nenhum heroísmo em apertar um botão à distância
e disparar projéteis com urânio empobrecido (arma
proibida), como os EUA fizeram em 1991 no Iraque, causando deformidades
tão brutais em bebês que minhas palavras jamais
conseguiriam descrever [Se o leitor quiser ver por si mesmo:
http://www.answering-christianity.com/iraqi_torture.htm]; nem
em bombardear os soldados Iraquianos com napalm (outra arma
proibida) [http://digitaljournalist.org/issue0212/pt_index.html];
nem em usar a ONU para criar sanções contra o
Iraque, cujo real objetivo era enfraquecer o país e invadi-lo,
mas que provocaram a morte por desnutrição de
centenas de milhares de crianças.
A guerra americana da
vida real é uma gigantesca engrenagem de triturar gente,
uma fria máquina da morte. E quem serve e opera essa
máquina são as antíteses dos heróis
dos filmes: os soldados americanos da vida real, alter egos
dos insetos do disco voador. Bravos apertadores de botões
na retaguarda; mas que, quando se vêem no mano a mano,
parecem galinhas inquietas, de olhos esbugalhados, que enxergam
inimigos até na própria sombra e disparam contra
tudo que se move, inclusive mulheres, crianças, jornalistas
e seus próprios companheiros.
Mas, apesar de tudo isso,
a crença dos americanos no próprio heroísmo
segue viva, resistindo aos fatos. O único lampejo de
realidade ocorreu em 11 de setembro, quando - além de
provar uma pitada do próprio veneno - eles viram os pilotos
da Al Qaeda fazer exatamente o que seus heróis sempre
fizeram nas telas, mas só nas telas; e viram cair por
terra não as torres, mas a nave espacial de seu próprio
narcisismo; e viram restar no lugar delas um amargo vislumbre
da própria face, uma incomoda reposta para a pergunta
que jamais ousaram fazer: quem é o herói, e quem
é o covarde?
André Carlos Salzano Masini