ALHOS E BUGALHOS
Está aberta a temporada de comparações
esdrúxulas. Tem gente por todo o Brasil dizendo que a
invasão do Iraque e nossa violência urbana aqui
da terra Tupiniquim são "quase a mesma coisa".
"Apenas mais duas entre tantas guerras,"
exclamam, relegando ambas à vala comum.
O entusiasmo é tanto, que logo
vão incluir na lista as brigas de torcedores do Coxa
e do Atlético, as batalhas entre polícia e sacoleiros
na Ponte da Amizade, os tumultos do futsal entre Cascavel, Foz
e São Miguel, a chegada do rapa na casa da Mãe
Joana...
"Apenas outras tantas guerras..."
Isso se não acabarem comparando
o Lula com Saddam Hussein, a boca de fumo do Morro da Dona Marta
com a Casa Branca, Rosinha Matheus com George Bush, e Benedita
da Silva com Colin Powell.
Mas reflitamos um instante. Tiros de
fuzil e os carros incendiados à parte, alhos não
têm nada a ver com bugalhos. A ocupação
do Iraque é uma agressão de um país contra
outro. Uma invasão alienígena, onde soldados americanos
ignorantes gritam em inglês para crianças e mulheres
cobertas de véus, que choram apavoradas sob a mira dos
fuzis, sem entender uma palavra. A estranheza é total:
língua, religião, hábitos, cultura, aspirações...
É o velho enredo da dominação imperialista,
mas agravado por uma hipocrisia e torpeza jamais vistas. Por
isso não devemos vulgarizar essa guerra lançando-a
à vala comum. Devemos dizer NÃO aos EUA, na forma
de um severo e permanente boicote a seus produtos. Quem não
o fizer por ética, deveria pensar em fazê-lo por
autopreservação.
Algo absolutamente distinto é
a festa da criminalidade brasileira. Este é um problema
interno de um povo, nós; de um Estado, o Brasil. Crime
não é confronto entre sociedades, e sim desajuste
entre alguns indivíduos e os costumes ou preceitos de
seu próprio agrupamento. Além disso, quando comparam
nossas cidades com Bagdá ocupada, estão falando
de um tipo de crime muito particular: o crime organizado, os
criminosos contumazes. Pessoas que já cometeram dezenas
de latrocínios e homicídios, e que mesmo condenadas
seguem com suas carreiras de terror, ameaçando e desdenhando
o poder do Estado. São organizações puramente
egoístas, que não têm a dignidade de representar
qualquer grupo social, cultural, político, racial, religioso,
ou seja o que for. Elas jamais foram e jamais serão a
voz da periferia esquecida, como pretendem alguns; e na verdade
causam mais tormento à periferia que aos bairros ricos.
A esmagadora maioria dos brasileiros
tem uma pronta resposta para esses excessos: dura punição!
É admirável como o sentimento moral espontâneo
do ser humano permanece mais confiável e efetivo que
suas tortuosas elucubrações intelectuais. "Duas
coisas me admiram sempre mais," escreveu Kant, "as
estrelas sobre mim e a lei moral dentro de mim".
E aqui é necessário desfazer
outra miscelânea mítico-ideológica: punição
não é autoritarismo, nem vingança, nem
brutalidade, é ÉTICA! É a justa retribuição
pelos atos cometidos, ministrada em nome do agrupamento humano
que sofreu esses atos.
Não existe, ao contrário
do que muitos imaginam, nenhuma imposição ética
de que punição deva ser branda. Pelo contrário,
ela deve ser proporcional ao crime. Punir de forma branda não
é ser bonzinho, é ser antiético. A outra
face, da qual Cristo falou, não tem qualquer relação
com impunidade. Refere-se ao perdão individual, concedido
no coração de cada vítima. Refere-se a
livrar-se do peso do ódio. Cristo jamais pretendeu abolir
a justiça, ou a punição, ou o inferno.
O indivíduo pode perdoar, e ganhará muito se o
fizer, mas a sociedade não tem esse direito! A verdadeira
e milenar imposição ética, da Bíblia
até Kant, é inequívoca: que atos criminosos
não fiquem impunes.
Nossos políticos e juristas precisam
começar a agir como membros de um povo maduro e deixar
de lado a síndrome de herdeiros da ditadura. Impor a
ordem não é autoritarismo, é obrigação
democrática. O Soberano Povo Brasileiro tem absoluto
direito de instituir, e ver executadas, as penas que julgar
adequadas a cada crime, inclusive a pena de morte. Qualquer
tecnicalidade jurídica é absolutamente secundária;
pois é o sistema jurídico que deriva da vontade
e da percepção moral do povo, e que tem que se
ajustar a elas, não o contrário.
Mas, seja qual for o caminho que escolhamos,
o importante é não confundir nossa guerra com
"mais uma" e não deixá-la cair na vala
comum; pois na vala em que ela cair, cairemos todos.
André Carlos Salzano Masini