MAS, AFINAL, QUEM
É O TERRORISTA? *
No ano passado - quando vi aqueles aviões
americanos ultra-modernos, despejando suas bombas de sete toneladas
sobre paupérrimos vilarejos afegãos, e nossa imprensa
televisiva chamando isso de guerra contra o terror - comecei
a ter sérias dúvidas sobre o significado da palavra
terror.
Hoje, a guerra contra o terror prossegue
- com a invasão do Iraque e a operação
choque e espanto - e minhas dúvidas aumentam. Choque
e espanto não são, por si próprias, idéias
muito próximas de terror? Essa operação,
que se materializa nas gigantescas bolas de fogo que cobrem
Bagdá, não parece um eufemismo para operação
terror?
Consultei o dicionário para ver
o que terrorismo significa:
Modo de coagir, ameaçar ou influenciar
outras pessoas, ou de impor-lhes a vontade pelo uso sistemático
do terror, diz o Aurélio. Então percebi que havia
um sério engano nessa história toda:
Todos se lembram de 11 de setembro de
2001, do atentado da Al Qaeda que matou mais de 3.000 civis.
Isso certamente é terror. Mas e os bombardeios de Bush,
não? A forma restritiva com que a televisão usa
o termo terrorista, parece sugerir que os EUA nunca fizeram
coisas similares a 11 de setembro!
Quem se lembra de 6 de agosto de 1945?
A segunda guerra mundial caminhava para
um fim certo: a rendição do Japão. Um Japão
mutilado, despido de seu antigo poderio aeronaval, sitiado pela
marinha estadunidense, condenado a agonizar por sufocamento.
Mas algo mais estava em jogo: a disputa entre EUA e União
Soviética pelos despojos da guerra e pela supremacia
político-militar do mundo.
O governo americano jogou uma bomba atômica
sobre Hiroshima, matando instantaneamente 70.000 pessoas, em
sua maioria mulheres, crianças e velhos, ferindo outras
100.000 e deixando um número não calculado para
sofrer as terríveis conseqüências de longo
prazo, que se estenderam por diversas gerações.
Os EUA alegaram que o uso da bomba foi
para salvar vidas americanas. Será que foi? Dissemos
que (...) explodir uma dessas coisas sobre um deserto, como
um fogo de artifício, não deveria causar muita
impressão, relatou mais tarde Oppenheimer. A quem a bomba
de Hiroshima visava impressionar? aos japoneses ou aos soviéticos?
Atualmente, de forma similar, Bush afirma que está invadindo
o Iraque para proteger vidas americanas do terrorismo.
Além de Hiroshima, houve Nagasaki,
as cidades alemãs, as vilas do Vietnã e do Camboja,
e muitas outras, até chegarmos aos atuais acontecimentos
em Bagdá.
Que diferença existe entre a ética
dos bombardeios americanos e a do atentado de 11 de setembro?
entre a ética do governo dos Estados Unidos e a da Al
Qaeda? a de Bush e a de bin Laden?
Materialmente, a bomba de Hiroshima sozinha
foi dezenas de vezes mais destrutiva que os atentados; e seus
efeitos, milhares de vezes mais prolongados.
Quanto às alternativas que ambos
tinham, a balança é desequilibrada, na proporção
do poder de cada um. Para os EUA, cada bombardeio foi uma escolha
fria, uma opção entre muitas. Para os árabes
- que vivem sob ditaduras controladas pelos EUA e não
têm à sua disposição meios pacíficos
de expressão ou meios convencionais de luta - a decisão
sobre os abomináveis atos terroristas foi tomada sem
a multiplicidade de alternativas que existe em Washington.
Quem é o terrorista? Quem no mundo
mais que George Bush está sempre querendo coagir, ameaçar
e influenciar os outros países? Quem foi que bradou:
ou vocês estão conosco, ou estão com os
terroristas?!
Ainda assim, para nossas televisões,
terroristas são apenas os opositores do poder estabelecido.
Por essa lógica, o presidente dos EUA, a encarnação
mundial do poder estabelecido, jamais será terrorista,
não importando a brutalidade de seus atos.
Para nós também, de tanto
ser repetida, essa acepção ameaça se tornar
uma verdade. Mas devemos pelo menos compreender suas conseqüências:
Por essa lógica, os nazistas que cometeram o holocausto
jamais seriam terroristas; os judeus, que com armas rudimentares
resistiram heroicamente no gueto de Varsóvia, sim. Por
essa lógica, no dia em que os interesses da Boeing e
da Embraer se chocarem, ou quando algum laboratório americano
ganhar a patente do chá de espinheira santa e quiser
nos cobrar royalties - no dia em que nos confrontarmos com os
EUA - os terroristas talvez sejamos nós.
André Carlos Salzano Masini
*Na versão impressa,
por motivo de espaço, o título foi modificado
para:
AFINAL, QUEM É O TERRORISTA?